Em janeiro deste ano, tive a alegria incomensurável de lançar pela editora Cepe os dois primeiros livros da Coleção Tomica. Foi uma festa cheia de amor e entusiasmo, bem na energia do Tomica. Hoje, o ano já se encaminhando para o encerramento, ainda sinto reverberações daquela acolhida, somada às que foram acontecendo ao longo dos meses. Vou compartilhar um pouco sobre essa recepção, começando aqui com uma rápida apresentação.
Tomica é um menino que vive inventando soluções mirabolantes para os desafios que encontra, mostrando que existem diferentes maneiras de olhar para as coisas.
O primeiro livro da série, “Tomica, o caçador de ideias”, traz perguntas sobre a própria criação de histórias. Tomica resolve escrever um livro, mas como se agarra uma ideia? É quando coloca seu engenho nessa caçada, que ele surpreende os leitores. Será que vai funcionar? E se a caça resolver caçar o caçador?
Já em “Tomica e o hotel de passarinhos”, nosso entusiasmado amigo fica dividido: ele quer um passarinho, mas entende que passarinho gosta de liberdade. Ainda bem que ele tem ajuda da turma, e até o avô entra na dança, para resolver a situação. O que ele não esperava, é que um passarinho podia esticar sua imaginação até caber o mundo todo!
Tomara que vocês se apaixonem pelo Tomica como eu, e que sejam contagiados pelo seu jeito de abraçar a vida com curiosidade, abertura e criatividade!
Além dos alimentos, chegavam diariamente na torre sombria tecidos dos mais variados: algodão, seda, cetim, e linhas para bordar, que iam de ásperas e cruas a fios de ouro e prata. Por isso, a princesa passava as horas em que podia aproveitar a escurecida claridade do dia, costurando e bordando vestidos, juntando cores e texturas em feitios que ia imaginando. O triste é que ao fim de cada vestido ela chorava, porque por mais maravilhosos que fossem, ninguém os via. E a princesa não via ninguém.
Foi num desses entardeceres de fim de vestido, que três penas entraram pela janela, trocando o choro da princesa por curiosidade. As penas, que primeiro caíam devagar, começaram a girar em torno dela, girando, girando, subindo, formando um túnel de ar que a arrancou do chão, atravessou com ela o teto e finalmente a soltou sobre a abóbada. Diante de seus olhos desacostumados, o espaço ofuscante que se precipitava lá do alto.
Tudo era tão sem fim, que a princesa mal conseguia respirar. Se agarrou a uma velha grade, procurando vencer a vertigem, mas seu corpo tremia, e a grade tremia, e a torre, ela então percebeu com pavor, era a origem de todo o tremor. Paredes desmoronavam e os vestidos pendurados nelas despencavam, dançando como fantasmas esfarrapados. Só a abóbada continuava inteira, sustentada pelo voo das penas.
Escapar da torre havia sido noite e dia o sonho da princesa, mas agora que ele se transformava em pesadelo, ela maldizia as penas, maldizia sua curiosidade, e seu coração ia esgarçando junto a cada vestido.
Pior se tornou o sonho ruim, quando a abóbada também começou a ruir. Rachaduras se espalhavam rapidamente, pedras iam virando pó, e foi só então que a princesa notou o enorme pássaro dourado observando impassível a destruição. O pássaro era o dono das penas. O pássaro sabia voar. A princesa não. Até que ela soube.
Ela se lançou em direção ao pássaro, que abriu suas imensas asas douradas. Agarrada ao dorso reluzente, mesmo com os olhos fechados o escuro da torre que permanecia dentro dela foi se dissipando. Os olhos já podiam ser abertos, e de tronco levantado ela viu o céu dourar-se em reflexos, que se multiplicavam como uma troca entre as asas e o poente.
Daqui para frente, não se conhece a história da princesa, mas pode-se ainda visitar o lugar destes acontecimentos. Hoje não há ali torre escura nem princesa aprisionada, apenas um campo de flores. Se as flores brotaram dos vestidos, não se sabe. Mas a cada primavera elas abrem suas pétalas das mais variadas cores e texturas, em feitios nunca antes imaginados.
Da série ilustrando a ilustração Pedi ao Flavio Souza uma ilustração engavetada para participar da minha brincadeira, e ele me presenteou com essa, que já veio com gostinho de conto de fadas. Será que ele concorda??
Sobre o ilustrador Flavio Souza é ator, diretor de teatro, narrador e ilustrador, aprendeu a ser palhaço para rir de si mesmo e olhar o mundo de forma diferente. Gosta de cachorros, brinquedos antigos e cadernos de desenho. Faz seu imaginário criar asas em espetáculos de teatro para crianças onde mistura teatro e ilustração. É doutor em teatro, professor e figurinista também.
Ô, pai, quantas vezes será que lemos esse poema? Você completando cada estrofe com “é lá que eu quero morar” e um sorriso. Por isso o espalho agora no ar, pra você continuar curtindo, aí do último andar.
O último andar (Cecília Meireles, em “Ou isto ou aquilo”)
No último andar é mais bonito: do último andar se vê o mar. É lá que eu quero morar.
O último andar é muito longe: custa-se muito a chegar. Mas é lá que eu quero morar.
Todo o céu fica a noite inteira sobre o último andar. É lá que eu quero morar.
Quando faz lua, no terraço fica todo o luar. É lá que eu quero morar.
Os passarinhos lá se escondem, para ninguém os maltratar: no último andar.
De lá se avista o mundo inteiro: tudo parece perto, no ar. É lá que eu quero morar:
Uma semana antes do meu pai ser internado, minha irmã me mandou esse presente. Eles tinham lido meu livro e ela, percebendo que ele estava bem interativo, pegou o bloco e ficou surpresa com sua disposição para desenhar. Seu tempo de atenção já estava bem menor para a leitura e a capacidade para desenhar reduzida, então fiquei felicíssima do meu livro ter sido estímulo para ele brincar com os lápis no papel, se divertindo com as cores.
De uns anos pra cá, quando a doença ainda não tinha se manifestado claramente, papai sempre brincava, dizendo sobre diferentes situações boas: “Não é a última, é sempre a penúltima!”. Assim foram nossas despedidas. Valorizávamos o que permanecia, não o que se perdia, mas aos poucos íamos nos despedindo. Era sempre uma penúltima despedida. Até que veio a última. Já os presentes, estes serão para sempre os penúltimos.
Quando minha mãe morreu, o Thomas fez um desenho que me deixou curiosa e perguntei o que era: “Dois felizes pra dizer obrigado pela vovó ter nascido”, ele respondeu.
Agora é meu pai que se despede, e as palavras da criança de cinco anos ainda iluminam meu coração. E o bonito foi que esse ano tivemos mesmo a oportunidade de agradecer o seu nascimento, na comemoração dos seus 90 anos. Como eu estava longe, encomendei flores pela internet, e porque lá perguntava se eu queria mandar uma mensagem, acabei deixando por escrito meu agradecimento. Essa foi a cartinha que escrevi, simples, pra ele acompanhar:
Querido papai Carlos, Hoje é dia de festa! Hoje você faz 90 anos! E que jornada! Em meio a muitas alegrias e desafios, você sempre persistindo. “Água mole em pedra dura, tanto bate até que …”. Um dia você escreveu pra mim assim: “Não tenha pressa de chegar. A estrada é bonita. Vamos olhar a paisagem.” Obrigada por ter aberto um caminho nessa vida pra mim, por ter me dado a mão, apontado a beleza, compartilhado alegria, ensinado otimismo, paciência e persistência. Te amo! Aproveito pra agradecer a todos que te querem bem e a todos que estão por perto e cuidam de você com tanto carinho e amor, especialmente sua tão dedicada filhinha Caína, e a Anna, a Miriam e a Fernanda. Que família! Feliz Aniversário Carlos Cozendey!!!
Mais uma surpresa! O Risco e o Fio, em muito boa companhia, sendo analisado no livro “A imagem nos livros infantis – Caminhos para ler o texto visual”, de Graça Ramos, da Autêntica Editora.
Obrigada, @mkbezerra, por me contar e pelas fotos!
Coisa que me encanta é a capacidade de transformar de colaborações. Como contei antes, queria fazer um vídeo com “O Risco e o Fio”, para que ele ficasse mais acessível. Fiquei super animada quando o Augusto topou gravar pra mim, porque, entre outros tantos talentos, ele é um contador de histórias maravilhoso! Assistam ao vídeo no meu Instagram ou Facebook, e aí vocês vão poder confirmar o que eu acabei de dizer. O Risco, o Fio e a Tecelã ganharam nova vida, saindo do papel para tecerem esta outra rede, convidando todos a pescarem muitas outras brincadeiras!