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O segredo da praia das cavernas

Mira tinha um machucado. O chato do machucado é que não dava para ver. Mira olhava para pele, para descobrir onde doía, mas não via. Ela também não sabia como tinha machucado. O que ela sabia era que não tinha sido nem o Rui nem a Ria.

Rui e Ria tinham achado Mira na beira da estrada, quando ela era ainda bebê. Eles chamaram o Sebastião, latindo e miando sem parar, até ele ir ver o que era. E foi assim, o rosto cheio de espanto por trás da barba branca, que Sebastião resolveu cuidar do bebê.

Agora, Mira estava naquela mesma estrada, Rui e Ria ao seu lado, e o coração cheio de espanto. Ela ia caminhando, segurando firme o mapa que o Sebastião tinha dado para ela antes de morrer. Mesmo borrado de lágrimas, o desenho do Sebastião mostrava bem claro que o lugar para onde eles deviam seguir era a praia das cavernas. A praia das cavernas, diziam, era uma praia de mar bravo, onde ninguém ia porque as cavernas eram enfeitiçadas.

Os três levaram três dias para chegar à praia. Quando finalmente a estrada virou areia, lá estavam elas: as cavernas misteriosas e as ondas gigantescas. Mas o mapa não terminava ali, ele indicava a pequena entrada da primeira caverna e uma linha continuava por dentro dela, até um losango alaranjado. Depois passava por uma bola preta na caverna seguinte e parava na terceira, em um X.

Ria e Rui rodeavam Mira, inquietos e desconfiados, mas quando perceberam que ela ia entrar na caverna, foram na frente. Mira entrou de quatro como eles, os três bem devagar, atravessando com cuidado aquele túnel estreito que ia deixando a luz para trás.

O túnel era curto e eles logo chegaram a um salão maior, onde Mira pôde se levantar. Com o restinho de luz que entrava, ela notou um pedaço de pau fincado no chão e três outras passagens ao fundo. Qual delas levava ao losango laranja, Mira ia ter que descobrir desafiando a escuridão. Ela pegou o pau para se proteger, respirou fundo, escolheu a terceira e foi tateando a rocha fria, com Rui e Ria acompanhando.

Mira não fazia ideia de quanto eles já tinham andado, quando as paredes se afastaram da sua mão, deixando os três soltos naquele espaço que parecia crescer junto com o escuro. Era impossível enxergar qualquer coisa e Mira tinha perdido todo o senso de direção. Se até Ria e Rui estavam confusos, como eles iam achar a saída? E, afinal, para que eles tinham entrado??

De repente, uma labareda se acendeu no meio da gruta, ao mesmo tempo que grandes portais se abriram para fora. Rui e Ria latiam e miavam assustados com o fogo, mas Mira sorriu pela primeira vez em muitos dias, acreditando ter encontrado o que tinha ido buscar ali. Acendeu seu bastão no fogo encantado e saiu confiante em direção à segunda caverna.

Era uma caverna menor, que alongava para frente pedras angulosas, como dois braços ameaçadores. Da entrada, Mira viu uma madeira como a sua fincada no chão e ficou indecisa, parada debaixo do grande arco. Devia acender a tocha? O que significava o ponto preto no mapa?

Mira se sentia vigiada, como se a qualquer momento algo assustador fosse atacá-la, então resolveu não entrar e pediu a Ria e Rui para encontrarem um lugar bem alto, onde eles pudessem ficar de guarda. Deu as costas para a caverna, mas ia olhando por sobre os ombros, enquanto caminhava para a próxima.

A terceira caverna era a maior, tinha uma entrada grande e, como as outras, uma haste de madeira presa no chão. Mira tirou o mapa do bolso para olhar mais uma vez e tentar entender o que ela devia fazer. O X era provavelmente a marca do destino, do tesouro, ou seja lá o que ela estava procurando. Mas e se fosse ao contrário, a bola preta o final e o X só um riscado, para dizer que ela não devia entrar ali? Sem pensar mais, no impulso, entrou e acendeu a tocha.

Assim que a chama brilhou alaranjada, um grito monstruoso ecoou e rachaduras foram se abrindo nas paredes, num barulho ensurdecedor e aterrorizante, como se tudo fosse desmoronar em cima de Mira. Apesar de desnorteada, ela conseguiu correr para fora, imaginando que tinha escapado à tempo, e que a caverna ia se transformar num monte de pedras diante dos seus olhos. O que aconteceu foi muito pior.

A caverna não desmoronou, e sim abriu uma bocarra com dentes terríveis na direção de Mira. Debaixo dela, um terremoto começou a sacudir o chão e duas mãos de terra surgiram do meio da areia, prendendo seus pés. Impossível andar, impossível fugir, o coração batendo como cem tambores, descontrolado de medo.

Ria e Rui também não conseguiam se mexer, pois suas patas foram cimentadas ao topo das cavernas onde eles estavam de guarda. Nenhum som saía da boca de nenhum dos três, como se até o sopro das vozes tivesse sido aprisionado. Só o que se ouviu, foi um vozeirão:

– Adivinha, ou perde a vida!, falou a bocarra.

E, se inclinando cada vez mais perto de Mira, lançou uma adivinhação:

– Cofre vermelho,
guarda bússola e espelho.
Quebrado uma vez,
remendado por três,
prata preto e ouro,
para sempre seu tesouro.

As palavras tombaram do monstro e ficaram petrificadas sem sentido na cabeça da Mira, bloqueando qualquer solução para a adivinhação. Foi quando Rui e Ria começaram o alarido. As vozes tinham se soltado e, apesar das patas presas, eles tentavam ajudar latindo e miando cada vez mais insistentes, mais alto, mais urgentes. Aquele som foi abraçando Mira como uma música muito antiga… De repente, era como se ela pudesse se lembrar do rosto do Sebastião segurando ela pela primeira vez.

O coração da Mira desacelerou, para logo recomeçar a bater forte, só que agora num compasso diferente. Ela tinha a resposta:

– Coração!, ela falou para ela mesma.
– Coração!!, ela gritou com toda força, para garantir que o monstro de pedra ouvisse.

O coração era o cofre vermelho onde ela guardava o que tinha de valioso, que era mesmo daquelas cores. Quase podia sentir na mão o macio do cabelo prateado do Sebastião, do pelo preto da Ria e do pelo dourado do Rui. Aí, sem ela estar esperando, aquele macio quentinho foi subindo pelo braço e se espalhando no peito, como se estivesse dissolvendo alguma coisa… alguma coisa dura e pontiaguda que arranhava… Será que era aquela dor escondida se dissolvendo? Então era ali o machucado?

Mira foi se sentindo leve, como se estivesse levantando do chão. Acontece que estava mesmo! As duas mãos de terra tinham soltado seus pés e agora suspendiam Mira até o topo de uma árvore. Dali, segurando firme em um galho, ela viu a chama que tinha dado vida ao monstro se apagar, a bocarra desaparecer e a caverna voltar ao seu silêncio de pedra. Também dava para ver a estrada se estendendo longe por onde eles tinham vindo, mas o caminho dali para frente ela não podia ver, porque não sabia onde ir.

Ela foi passeando com o olhar em todas as direções, até que viu uma coisa que não tinha notado antes: um barco atracado no alto de uma ponta de pedra. O que aconteceu em seguida, deixou claro para Mira que o barco era parte da mágica da praia. Primeiro, o nome dela foi sendo pintado, letra por letra, no casco do barco e, depois, uma corda foi descendo perto da árvore, saindo do meio das nuvens que cobriam totalmente o céu.

Ria e Rui já estavam com as patas soltas, mas continuavam parados, como se soubessem que a nova aventura não era deles. Mira olhou para eles do alto da árvore e gritou, sem certeza:

– Eu volto logo!

A certeza que ela tinha era que, como o Sebastião, eles iam estar sempre com ela. E foi pensando isso, que ela agarrou a corda e deu o salto que era para ela dar sozinha.

Assim que Mira entrou no barco, ele foi levantado por uma onda escura e lançado no mar bravio. Os poderosos tentáculos de água jogavam o barco que nem um brinquedo e Mira não sabia por quanto tempo ele ia aguentar. Mas, para sua surpresa, a revolta das ondas era só perto da praia e logo o mar foi se esticando em calmaria. O céu azul empurrou as nuvens e o horizonte se abriu sem fim na frente dela.

Ia ser durante a viagem que Mira ia finalmente desvendar o início da adivinhação, porque agora, sem mapa, ela precisava da bússola e do espelho do cofre vermelho. A bússola para guiar. O espelho para ela enxergar, bem dentro dos olhos, a coragem.

© Gabriel Benedito

Da série ilustrando a ilustração
O Gabriel Benedito me mandou a ilustração e eu criei a história baseada nela.
Obrigada, Gabriel!

Sobre o ilustrador
Gabriel nasceu em Niterói, mas, aos 2 anos, se mudou para o Morro da Casa Branca, na Tijuca, Rio de Janeiro. Durante sua adolescência, flanava pelas ruas do bairro observando os grafites nos muros… e se encantava! Nos cadernos da escola, dava vazão a esse encantamento criando seus próprios desenhos. Não teve escapatória: a Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA|UFRJ) foi o seu destino. Em 2018, saiu de lá, formado em Comunicação Visual Design, para brilhar no mundo dos livros. (Texto gentilmente cedido pela Editora Rebuliço)
Gabriel escreveu e ilustrou Dora, uma menina nordestina e ilustrou A luz de Aisha.

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