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A princesa e o pássaro dourado

Além dos alimentos, chegavam diariamente na torre sombria tecidos dos mais variados: algodão, seda, cetim, e linhas para bordar, que iam de ásperas e cruas a fios de ouro e prata. Por isso, a princesa passava as horas em que podia aproveitar a escurecida claridade do dia, costurando e bordando vestidos, juntando cores e texturas em feitios que ia imaginando. O triste é que ao fim de cada vestido ela chorava, porque por mais maravilhosos que fossem, ninguém os via. E a princesa não via ninguém.

Foi num desses entardeceres de fim de vestido, que três penas entraram pela janela, trocando o choro da princesa por curiosidade. As penas, que primeiro caíam devagar, começaram a girar em torno dela, girando, girando, subindo, formando um túnel de ar que a arrancou do chão, atravessou com ela o teto e finalmente a soltou sobre a abóbada. Diante de seus olhos desacostumados, o espaço ofuscante que se precipitava lá do alto.

Tudo era tão sem fim, que a princesa mal conseguia respirar. Se agarrou a uma velha grade, procurando vencer a vertigem, mas seu corpo tremia, e a grade tremia, e a torre, ela então percebeu com pavor, era a origem de todo o tremor. Paredes desmoronavam e os vestidos pendurados nelas despencavam, dançando como fantasmas esfarrapados. Só a abóbada continuava inteira, sustentada pelo voo das penas.

Escapar da torre havia sido noite e dia o sonho da princesa, mas agora que ele se transformava em pesadelo, ela maldizia as penas, maldizia sua curiosidade, e seu coração ia esgarçando junto a cada vestido.

Pior se tornou o sonho ruim, quando a abóbada também começou a ruir. Rachaduras se espalhavam rapidamente, pedras iam virando pó, e foi só então que a princesa notou o enorme pássaro dourado observando impassível a destruição. O pássaro era o dono das penas. O pássaro sabia voar. A princesa não. Até que ela soube.

Ela se lançou em direção ao pássaro, que abriu suas imensas asas douradas. Agarrada ao dorso reluzente, mesmo com os olhos fechados o escuro da torre que permanecia dentro dela foi se dissipando. Os olhos já podiam ser abertos, e de tronco levantado ela viu o céu dourar-se em reflexos, que se multiplicavam como uma troca entre as asas e o poente.

Daqui para frente, não se conhece a história da princesa, mas pode-se ainda visitar o lugar destes acontecimentos. Hoje não há ali torre escura nem princesa aprisionada, apenas um campo de flores. Se as flores brotaram dos vestidos, não se sabe. Mas a cada primavera elas abrem suas pétalas das mais variadas cores e texturas, em feitios nunca antes imaginados.

© da ilustração Flavio Souza

Da série ilustrando a ilustração
Pedi ao Flavio Souza uma ilustração engavetada para participar da minha brincadeira, e ele me presenteou com essa, que já veio com gostinho de conto de fadas. Será que ele concorda??

Sobre o ilustrador
Flavio Souza é ator, diretor de teatro, narrador e ilustrador, aprendeu a ser palhaço para rir de si mesmo e olhar o mundo de forma diferente. Gosta de cachorros, brinquedos antigos e cadernos de desenho. Faz seu imaginário criar asas em espetáculos de teatro para crianças onde mistura teatro e ilustração. É doutor em teatro, professor e figurinista também.

Para comprar belezuras que o Flavio produz, visite a loja online Pequeno Teatro.

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