tem história no blog! • 4

As aventuras de Carolina e Cícero

Quando a família Robinson resolveu reformar o banheiro, eles decidiram que não queriam mais a banheira e a coitada da Carolina acabou no depósito de lixo. A verdade é que, no começo, Carolina bem que gostou da casa nova, porque ali ela fez um monte de amigos: tinha televisão velha, computador quebrado, cadeira faltando pé, uma porção de pedaços disso e daquilo e muito mais. Eles conversavam noite adentro e todo mundo tinha alguma coisa interessante pra contar sobre a vida.

O problema é que chegou uma hora em que a Carolina começou a sentir falta da água. Ela tinha sede, a pele muito seca, morria de saudade do abraço macio da água. Carolina foi então conversar sobre sua tristeza com o querido amigo Cícero, a lona de circo. Cícero ouviu e contou que também estava chateado, porque sentia falta das crianças e de viajar pelo mundo. Os dois tinham mesmo muito o que conversar. Trocaram ideias pequenas, grandes, engraçadas, tristes, malucas e, no final, bolaram um plano: eles iam navegar juntos pelos oceanos! Animadíssimos, pediram ajuda a um carrinho de mão meio enferrujado, que carregou os dois até a praia e depois deu adeus, abanando um trapo sujo.

Carolina era o barco e Cícero a vela. Que maravilha era estar no mar! Eles aprenderam rápido os truques da navegação e passaram anos e anos viajando pelo mundo. Tudo ia muito bem, até o dia em que eles foram pegos de surpresa por uma terrível tempestade. Os ventos e o oceano gritavam, brigavam, tentavam afogar Carolina e Cícero, mas os dois resistiam. De repente, uma montanha de água se levantou numa onda gigante que, lá de cima, jogou os dois com toda força contra uma pedra. Foi um tombo feio, muito feio, mas eles estavam salvos!

Depois da tempestade acalmar, quando conseguiu respirar novamente, a Carolina, cheia de água do mar e peixes de tudo quanto é cor, percebeu que tinha ficado presa na pedra. Os dois se olharam, sem saber o que fazer.

“Eu não posso navegar mais”, Carolina acabou falando.

Cícero não desanimou. Ele tinha visto todo tipo de coisas nas viagens, então não demorou a pensar num outro plano. Ele cobriu a Carolina, de novo como lona de circo, só que cheio de furos e a entrada rasgada. O sol passava pelos furos, pontilhando de luz os peixes da Carolina, e pela entrada sempre aberta, passava quem quisesse passar. Em cima da entrada, Cícero pediu a uma gaivota pra escrever com seu cocô branco brilhante: AQUÁRIO PÚBLICO.

Agora Carolina está sempre com água e Cícero sempre com crianças, que vêm do mundo todo pra ver os peixes coloridos. Os dois adoram morar em frente ao mar.

Sobre a ilustradora: © Yara Kono nasceu no Brasil em 1972. Ela começou seus primeiros rabiscos na parede de um pequeno quarto e a mãe dela, que no início não ficou nada feliz, acabou cedendo uma parede inteira para ela desenhar. Agora ela mora em Portugal e continua desenhando, mas atualmente em papel (e não só). Ela é parte da equipe do estúdio de design gráfico/editora Planeta Tangerina.

furo

Pelo furo na cerca, vejo
Será mais verde,
o verde vizinho?

Se olho mal olhado
o que vejo?
Vejo parte, recorte

Vejo sem ser vista
protegida
escondida

Vejo pela falta na madeira
o que me imagino em falta

Mas será falta, o vazio?
Ou abertura entre lados
é comunicação
espaço de interseção?

© da foto Thomas Simpsonpoema inspirado na foto

tem história no blog! • 3

Jorge, Janete e Junior

Jorge e Janete vinham voltando das compras. Eles eram duas bolas de tênis e estavam saltitantes de felicidade, porque depois de cinco anos casados, Janete estava esperando neném.

Quando chegaram em casa, uma dorzinha foi repuxando a barriga da Janete, até virar uma dor bem forte. Aí ela começou a quicar pela casa toda, gritando:

“Hora de ir pro hospital! Hora de ir pro hospital!”

Foi o tempo certo deles chegarem ao hospital e o neném botar a carinha pra fora. Era um neném cheio de saúde, mas ninguém sabia dizer se era mais parecido com a mãe ou com o pai, já que ele era só uma bolinha bonitinha de pingue-pongue.

Não demorou muito e o Junior se transformou numa bela bola de tênis. O problema é que ele não parou por ali, continuou crescendo até virar uma bola de vôlei. Depois cresceu ainda mais e virou uma bola de basquete. Nessa hora, os pais ficaram muito preocupados, e resolveram levar o Junior ao médico.

O médico examinou, examinou e então falou pros pais:

“Podem relaxar, está tudo indo bem”. E receitou muito feijão e compreensão.

Jorge e Janete seguiram a receita e agora o Junior é um balão a gás, grande e forte. Os dois vão sempre passear com ele, voando sobre montanhas, rios, mares e quadras de tênis.

Sobre o ilustrador: © Chansin Kittichotpanit é um autor e ilustrador tailandês, que vem trabalhando com livros infantis há uns vinte anos. Ele ama arte, design, livros, viagens, “vintage”, mercado de pulgas, câmera fotográfica com filme, álbuns ilustrados e comida gostosa.