tem história no blog! • 5

O menino com a lua na cabeça

Manu era bem distraído. Às vezes ele dizia que queria andar de bicicleta no parque, mas aí distraía, pegava papel, caneta e começava a desenhar. Depois ia calçar os sapatos e botava eles trocados. As meias nunca tinham o par certo, mas isso era de propósito, porque ele gostava de vestir meias diferentes.

Um dia Manu estava procurando sua meia alaranjada de marciano, pra botar com a preta estrelada, e a mãe falou:

“Menino, tá no mundo da lua? A meia já tá no seu pé!”

O Manu sentou e pensou que andava mesmo no mundo da lua, viajando no espaço entre planetas, cometas, satélites, foguetes, extraterrestres e a lua mesma, redonda e luminosa. Aí, logo que ele imaginou a lua, aconteceu uma coisa muito interessante: uma luazinha pipocou pra fora da imaginação e ficou ali, grudadinha, bem perto da cabeça dele.

Aquilo deu uma felicidade incrível pro Manu. “Uma lua todinha pra mim! Vou poder guardar uma porção de ideias nela e assim não perco!”

Depois que ganhou essa lua, o Manu guardava mesmo muitas ideias, coisas que descobria, coisas que aprendia, coisas que inventava. E ele ficava tão animado com tantas ideias assim iluminadas, que corria pra lá e pra cá, um sorrisão no rosto, dividindo as ideias com os amigos.

O tempo foi passando, o Manu cresceu e resolveu estudar pra ser professor. Quer dizer, ele juntou bastante ideia na sua lua, pra poder dividir com os alunos. Mas, logo no primeiro dia de aula, teve um problema. Manu se distraiu, deixou a lua na mesinha de cabeceira e, ao invés dela, levou o livro que estava na mesinha.

Nervoso, entrou na sala de aula e encarou os alunos. E os alunos… começaram a rir!

“O professor tá com as meias trocadas!”, um falou, enquanto a turma toda continuava rindo.

Manu olhou pras meias, olhou pros alunos, olhou pras meias, olhou pros alunos, e acabou se juntando a eles na risada. Ele achou que era mesmo divertido usar meias que divertiam!

O melhor foi que, quando Manu abriu o sorrisão, as ideias também foram se abrindo, mesmo sem a lua por perto. Então o Manu entendeu que ele podia sempre buscar as ideias na sua lua, até se o pensamento tivesse que ir bem longe.

Agora, Manu resolveu deixar a lua ali mesmo na cabeceira, pra usar também como luminária, quando ele quer ler de noite. E, sempre que precisa, ele busca lá umas ideias pras aulas. Outro dia ele deu uma aula tão boa sobre o espaço sideral, que um aluno comentou no fim: “Manu, acho que você é o melhor professor do planeta!”.

meninolua p

Sobre o ilustrador: Eu não lembro quantos anos o Thomas tinha quando fez esse desenho. Quando eu resolvi “ilustrar o desenho” com essa história, eu pedi pra ele me falar sobre o desenhista, e saiu assim:
Thomas Cozendey Simpson, por ele mesmo: Eu tenho quatro anos. Eu gosto de colorir e fazer desenhos sozinho; gosto de avião, de ir dentro deles e se tiver televisão; gosto do barulho das árvores com as folhas batendo; gosto de fazer coisas de papelão e tudo; gosto do gangnam style e quando eu crescer eu quero ser um ilustrador ou builder. 1725270011002003004005006007008009000000000. (E gosta de escrever números malucos no computador!)

linhas

Mesmo quando o cordão nos unia,
sua vida já era sua,
desde sempre se desfiando
em infinitos fios.
Cada fio um desafio
minha mão por perto
ajudando no equilíbrio.
Hoje assisto
ao seu malabarismo de longe,
porque você não quer minha mão
para atravessar a rua.
Ainda assim,
traço milimetricamente, à lápis,
avenidas perfeitas,
retas e luminosas,
para você caminhar sem pedras.
Porém.
Exuberante de possibilidades,
você dobra meu traçado,
empurra as pautas paralelas
e por linhas tortas
molda certo o seu feitio.
Com quantas linhas
se faz uma história
e qual delas será mais perigosa
para você se equilibrar?
Antes eu segurava sua mão,
agora você sobe no muro sozinho.
Então.
Num afeto repentino,
seguro sua mão à toa.
Toco de leve o calor
no protegido da palma,
onde se guardam,
as linhas outras,
dançarinas,
cujos desígnios
desconheço.

© do desenho Thomas Simpson • poema inspirado no desenho

costura

O homem caminha
entre silêncios de borboletas
e chega na encosta.
Ondas de pedra pararam aqui.
O mar as acaricia e alimenta
com a constância de uma mãe.
A gaivota carrega a sombra de seu vôo
e andorinhas dão lições de urgência.
Aqui o homem não está perdido
como num lugar qualquer,
numa rua qualquer
ou escritório qualquer.
Aqui ele sabe onde está.
Aqui ele está no limite
no encontro
na costura.
A costura revela o todo que ela costura.
O homem é um ponto da costura.