linhas

Mesmo quando o cordão nos unia,
sua vida já era sua,
desde sempre se desfiando
em infinitos fios.
Cada fio um desafio
minha mão por perto
ajudando no equilíbrio.
Hoje assisto
ao seu malabarismo de longe,
porque você não quer minha mão
para atravessar a rua.
Ainda assim,
traço milimetricamente, à lápis,
avenidas perfeitas,
retas e luminosas,
para você caminhar sem pedras.
Porém.
Exuberante de possibilidades,
você dobra meu traçado,
empurra as pautas paralelas
e por linhas tortas
molda certo o seu feitio.
Com quantas linhas
se faz uma história
e qual delas será mais perigosa
para você se equilibrar?
Antes eu segurava sua mão,
agora você sobe no muro sozinho.
Então.
Num afeto repentino,
seguro sua mão à toa.
Toco de leve o calor
no protegido da palma,
onde se guardam,
as linhas outras,
dançarinas,
cujos desígnios
desconheço.

© do desenho Thomas Simpson • poema inspirado no desenho

2 respostas em “linhas

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