se não me falhe a memória

© da foto Francisco Novais (tio Francisco!)

Levou muito tempo até termos um diagnóstico para o meu pai de demência. Até lá, muitas incompreensões. Com as limitações da pandemia, suas capacidades foram ladeira abaixo, e o único lado positivo foi que a doença estava agora plenamente revelada. Ainda assim, mais tempo passou até recebermos orientações dos médicos, então, nosso primeiro apoio foi a internet. Minha gratidão aos que compartilharam suas experiências, informações e reflexões, iluminando o início da jornada, e que me inspiram a contar um pouquinho da minha vivência. Destaco aqui Teepa Snow, que me guiou e ajudou a ir montando as peças do quebra-cabeça. Teepa tem uma abordagem positiva ao cuidado, que considera que o importante é focarmos nas habilidades que a pessoa ainda tem, e não nas que perdeu (conversando com uma amiga, ela concluiu: Talvez a gente devesse agir assim com qualquer pessoa, focar no que ela tem para oferecer, não no que gostaríamos que tivesse).

Claro que é um processo, e é dolorido e inevitável lamentarmos as perdas, mas a aceitação foi um passo essencial para começarmos a agir um pouco mais adequadamente à situação. Situação que está em constante mudança e exige constantes reformulações. É como criar um filho, mas ao contrário, enquanto a criança vai aprendendo e ficando mais independente, papai vai aos poucos desaprendendo e precisando de mais cuidados. Pelo que dizem os especialistas, a estimulação e uso das capacidades ainda presentes, ajuda a desacelerar esse desaprender. E cria espaços, em meio à dificuldade, de curtição da vida como ela é!

Atualmente, papai tem cuidadoras 24h por dia. Meu irmão e eu falamos com ele semanalmente online, porque moramos longe, e minha irmã é a que está sempre por perto. Meu irmão toca violão e canta com ele, e nem importa desafinar (meu irmão, não ele!). Minha irmã faz artes, leva pra passear e é o grande suporte, sempre presente, cuidando, gerenciando, levando à médicos e o que mais precisar. Eu venho adaptando minhas atividades, conforme vou percebendo que não funcionam mais. No momento, a sequência costuma ser assim: papo inicial (onde conto qualquer novidade), aula de inglês (vou mostrando frases pra ele traduzir), matemática (falo umas contas pra ele fazer de cabeça), leitura (leio pra ele), alongamento/massagem (sentados, vou fazendo e ele seguindo), terminando com um exercício de respiração e uma oração. São todas atividades simplificadas, mas eu vibro com ele fazendo e ele parece satisfeito de conseguir. Isso tudo, não sem eventuais frustrações e impaciências (de todos os lados!), dias melhores ou piores.

A leitura foi se simplificando mais e mais ao longo do tempo, porque vai ficando mais e mais difícil dele acompanhar. Acabei chegando ao “Ou isto ou aquilo”, da Cecília Meireles, sendo que só dois poemas caem bem. Para aumentar o repertório, resolvi escrever um outro. Percebi que o que funciona legal, além do ritmo e rima, é a repetição de um verso, que dá uma âncora pra ele não se distrair do poema, e ele se diverte quando paro no meio da frase, pra ele completar o final. Então, esse é o poeminha que escrevi pra ele, e é dedicado à minha irmã:

Se não me falhe a memória

Nasci em Jacarepaguá,
nunca mais voltei pra lá.
Foi morada provisória,
se não me falhe a memória.

Gosto da minha marmita:
arroz, feijão, bife, batata frita.
Até gosto de chicória,
se não me falhe a memória.

Já carreguei lata d’água,
subi o morro sem mágoa.
Joguei bola, fiz o gol da vitória,
se não me falhe a memória.

Na camisa do meu time
brilha a estrela sublime.
Ganha sempre, é a glória,
se não me falhe a memória.

Estudei, resolvi tratar de dentes.
Atendia os pacientes
na cadeira giratória,
se não me falhe a memória.

Me casei, tive três filhos.
Ajudei nos empecilhos.
Apoiei na trajetória.
Se não me falhe a memória

Se não me falhe a memória,
essa é a minha história.
Vai pra você, com dedicatória.
Se não me falhar a memória.

•••

Pra quem tiver interesse em demência,vale também visitar @obomdoalzheimer, que encontrei recentemente.

4 respostas em “se não me falhe a memória

  1. Minha querida Ana Carla, amei o poema! Segue uma sugestão: não pode acabar aqui. Esse deveria ser o primeiro, e ter uma continuidade com cada filho, netos, viagens que fizeram, coisas engraçadas que ocorreram, etc. é uma linda forma de comunicação com ele. E um resgate da memória de tudo que há de bom entre vcs.

    • Jacque! Obrigada! Sua ideia é linda, mas estou pensando em fazer outros com temas mais simples, do dia a dia, sobre coisas que ainda fazem sentido pra ele. Humm, talvez algo sobre os pais dele… Se fizer te conto! Mas percebi uma inspiração aí… Quem sabe você não leva ela adiante???

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